Valores postos em causa

O livro, A Crise Moral da América – Os Nossos Valores Postos Em Causa, escrito em 2005 pelo Cristão, ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter, fez-nos reflectir sobre o actual estado de coisas na sociedade em que vivemos.

O humanismo tem secularizado o mundo – as leis, a economia, a ética, o jornalismo, a educação, a política, os negócios estrangeiros, questões ambientais, ... e até a igreja. Muitos Cristãos pensam que a secularização do nosso mundo é inevitável e que, por isso, nada podemos fazer relativamente ao declínio da estadística, da educação, das leis, etc.. Têm uma falsa noção de espiritualidade. Para muitos a espiritualidade restringe-se a realidades não físicas. Por isso pensam que ser-se espiritual é não estar envolvido com as coisas materiais deste mundo. Muitos Cristãos julgam, erradamente, que a Bíblia contempla uma fatia muito pequena da vida. Crêem que a Bíblia tem muito a dizer sobre a oração, o estudo bíblico, a adoração e o evangelismo, mas ignoram que também tem muito a dizer sobre governo civil, sistema judicial, economia,  endividamento, punição criminal, cuidado dos pobres, jornalismo, ciência, medicina, negócios, educação, impostos, inflação, propriedade, terrorismo, guerra, negociações de paz, defesa militar, ética, ambiente, herança, investimento, etc., etc..

Este pensamento errático tem levado muitos a dividir a sua vida em secular e sagrada, e a viver a sua vida secular separada da espiritual, e vice-versa. A Bíblia não contempla essa distinção. Secular e sagrado eram conceitos inexistentes entre os primeiros Cristãos. Há séculos alguém fez passar a falsa noção de que a vida Cristã deve ser compreendida em termos de duas esferas – a sagrada e a secular. Admitimos que o sentido do sagrado e do santo num ambiente de adoração de igreja é mais fácil de conseguir do que na agitação de uma fábrica. Mas o trabalho, biblicamente, também é sagrado (Cf. Colossenses 3:17, 23).

Apetece-nos aqui recordar, a este respeito, o texto de um quadro que certa crente colocou na sua cozinha: “Aqui realizam-se três cultos por dia”. Para ela a confecção do pequeno-almoço, do almoço e do jantar, era igualmente um culto ao seu Senhor.“Tudo (no trabalho secular) quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens”.

A relação com Deus é o centro em torno do qual tudo – “sagrado” e “secular” - gravita. Se assim não fosse os Cristãos teriam de abandonar este mundo, mas a Bíblia não defende a ideia dos crentes o abandonarem por este não ser espiritual. Pelo contrário, requer que permaneçam nele (João 17:14-16) como sal e luz (Mateus 5:13,14). O sal faz sentido onde existe a necessidade de se travar a corrupção e a luz não é necessária a não ser que haja trevas para serem dissipadas (Mateus 5:15; Lucas 2:32). O crente não deve tomar a forma do mundo, nem se deve deixar corromper por ele (Romanos 12.2; 2 Pedro 2:20).O crente é um remido e o efeito da sua redenção afecta a sociedade. Usando uma ilustração bem adequada, como Cristãos devemos ser semelhantes ao termóstato, que influencia as circunstâncias que o rodeiam, e não como o termómetro que se deixa influenciar por estas.

Paulo repreendeu alguns Tessalonicenses por terem deixado de trabalhar (2 Tessalonicenses 3:10-12). Estamos no mundo e devemos viver nele, embora sob os princípios bíblicos transformadores (Cf. 2 Coríntios 5:17).

Paulo avisou que “nos últimos dias” sobreviriam tempos difíceis (2 Timóteo 3:1). Os descrentes evidenciam uma variedade de características que revelam a sua oposição aos propósitos de Deus, “Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afecto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus” (Vs. 2,3). Paulo diz que devemos evitar tais homens (V. 5), que não são amigos de Deus, mas dos prazeres. 

O domínio da cultura pelos ímpios será inevitável, uma fatalidade? Uma primeira leitura de 2 Timóteo 3 parece indicar que nos últimos dias os ímpios prevalecerão e que a influência piedosa declinará. Mas uma análise mais cuidada da passagem mostrará que Paulo extrai uma conclusão diferente. Ele compara a ascensão dos ímpios destes dias, a Janes e Jambres, os magos egípcios que se opuseram a Moisés (Cf. Êxodo 7:11). “Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario, como também o foi o daqueles” (2 Timóteo 3:9). Apesar de ser verdade que existe uma tentativa dos ímpios dominarem a cultura, o facto é que “não irão, porém, avante”. O seu arrojo com a impiedade é apenas temporário.

O Cristão conhece bem as Escrituras e permanece optimista mesmo perante o incremento das acções dos ímpios. No devido tempo, se com o Evangelho os crentes forem fiéis na sua acção de influência sobre o mundo, as actuações dos ímpios serão sustidas e eliminadas. Notemos que as características dos ímpios são dirigidas ao ego e de curta duração, resumindo-se a esta frase: “mais amigos dos deleites (prazeres) do que amigos de Deus” (2 Timóteo 3:4). O prazer do pecado é de curta duração (Provérbios 21:17) e o amor ao prazer não é investimento com futuro.

Os Cristãos do primeiro século ficaram conhecidos como quem alvoraçou o mundo, ou o virou de pernas para o ar (Actos 17:6). A sua pregação afectava a vida na sua totalidade (Actos 20:27). Não nos resignemos e conformemos vendo o mundo ser transformado pelos ímpios num pesadelo. A crença de que o mundo pode ser mudado foi adoptada recentemente pelo comunismo e pelo humanismo secular, e ultimamente pelo islamismo. Mas estes movimentos sem Cristo não têm qualquer hipótese de ser bem sucedidos (Cf. Salmo 2 e Provérbios 8:36).

Está nas nossas mãos, sob o Senhor, essa capacidade. Usemo-la. Sejamos “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplande[çamos] como astros no mundo” (Filipenses 3:15).

O reavivamento continua a ser uma possibilidade e ... uma prioridade.

Carlos M. F. de Oliveira
Fonte: Última Notícia

 

 


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