Teu servo Ouve

Adriano Anthero

“Fala, porque o Teu servo ouve” (I Sm 3:10).

As palavras acima são bem conhecidas. Elas foram ditas por Samuel, um dos grandes profetas que Deus usou no passado. Mas apesar de serem bem conhecidas, nem sempre paramos para analisá-las de perto. Nestes estudos, queremos considerar pelo menos três coisas importantes sobre essas palavras:

1) o ambiente (onde foram ditas);

2) a ocasião (em que foram ditas);

3) as palavras (propriamente ditas).

Neste primeiro estudo, veremos o ambiente.

O AMBIENTE
(Onde Foram Ditas)

INTRODUÇÃO

Um ambiente pode influenciar, e muito, no comportamento e nas palavras das pessoas. Por exemplo, viver no meio dos ímpios, onde os conselhos são maus e a conversa não edifica, pode levar alguém a uma conduta errada. Davi falou: “Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com homens dissimulados. Tenho odiado a congregação de malfeitores; nem me ajunto com os ímpios” (Sl 26:4, 5; compare com 1:1; Pv 1:10-19). Mesmo entre cristãos é necessário se ter cuidado para que não seja criado um ambiente ruim, onde os bons costumes possam ser corrompidos.

Num ambiente santo, porém, a influência estará voltada para que seja seguida “a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (II Tm 2:22).

Mas quando consideramos a situação de Samuel, aprendemos outra coisa. Aprendemos que mesmo um lugar santo pode ser transformado em um ambiente profanado. E se isso, infelizmente, vier a acontecer, aprendemos com Samuel qual o comportamento que Deus espera de nós nessa situação.

O LUGAR

O lugar onde Samuel se encontrava quando disse as importantes palavras do nosso título, tinha tudo para ser o melhor dos lugares e o mais agradável dos ambientes. Ele morava com Eli, num quarto, junto ao Tabernáculo. Naquela época, ainda estava presente o Tabernáculo construído no deserto (chamado de “tenda da congregação” em I Sm 2:22 e, o lugar santíssimo, de “Templo” em 3:3). O lugar era onde se adorava a Deus – um lugar santo – e era ali que estava a “arca do concerto do Senhor”, figura da presença de Deus. Olhando por esse ângulo, somos levados a pensar que Samuel vivia no melhor lugar possível (o que, de certa forma, não deixa de ser verdade). Os homens, porém, estavam corrompendo tudo. No mesmo lugar onde Samuel vivia, os filhos de Eli, Hofni e Finéias serviam como sacerdotes. Estes homens cometiam toda sorte de pecado, não respeitando o lugar, as ofertas, o povo, as mulheres e, principalmente, “não conheciam o Senhor” (I Sm 2:12-17, 22). Infelizmente, era no lugar onde a santidade e a adoração deveriam ser notadas que “era, pois, muito grande o pecado destes moços perante o Senhor, porquanto os homens desprezavam a oferta do Senhor” (I Sm 2:17). Aquele lugar que antes havia sido marcado pela reverência a Deus devido a Sua presença ali, agora estava sendo marcado pelo desprezo das coisas santas.

O AMBIENTE PROFANADO

Quando as pessoas iam até Siló para apresentar as suas ofertas ao Senhor, não encontravam mais um ambiente digno do Deus Santo. Ao contrário. Encontravam dois sacerdotes que estavam profanando o ambiente por ali.

Era do conhecimento de todos que os sacerdotes (sendo, pelo menos um deles, casado; I Sm 4:19) constantemente se prostituíam com as mulheres que em bando se ajuntavam na porta do Tabernáculo (I Sm 2:22). O triste resultado para tanta irreverência foi que “os homens desprezavam a oferta do Senhor”. Já não havia mais a mesma satisfação em se adorar a Deus. O ambiente se tornara num “covil de salteadores”, pois os sacerdotes, ao contrário de adquirir legalmente o alimento, tomavam do povo à força. É provável que tenha sido por isso que o povo começou a se afastar de Deus. O próprio Eli reconheceu isso dizendo: “fazeis transgredir o povo do Senhor” (I Sm 2:24). Poucos ainda se mantinham fiéis indo uma vez por ano a Siló (como os pais de Samuel), mas a maioria já havia abandonado aquele lugar de adoração.

No Salmo 78, Asafe lembra como desde a saída do Egito até a época de Davi o povo tinha pecado contra o Senhor. Mas quando é descrita a situação de Israel na época do sacerdócio da casa de Eli, Asafe diz que eles provocaram a ira de Deus “com as suas imagens de escultura” (v. 58). Não é difícil imaginarmos que em pouco tempo o povo estaria fazendo imagens para adorar. Como estavam desprezando a oferta do Senhor, logo seriam seduzidos a se prostrarem diante de umas imagens. De fato, Deus não estava mais recebendo a honra devida ao Seu nome. Ele estava sendo desprezado (I Sm 2:30). Por esse motivo, Deus também “desamparou o Tabernáculo em Siló” (Sl 78:60). Com isso, o ambiente se tornou ainda pior. Mesmo com toda formalidade presente, Deus não estava mais ali.

Que ambiente desfavorável se tornou aquele! O lugar santo agora era um ambiente profanado (pelos homens) e abandonado (por Deus)!

O SERVO E O AMBIENTE

Olhando com olhos humanos, Samuel, que era ainda muito jovem no meio de tanta coisa vergonhosa (I Sm 2:18; 3:1), tinha motivos de sobra para se queixar e viver uma vida de pecado, como os sacerdotes. Se fosse o caso, ele poderia ter sido o primeiro a dizer: “Os outros fazem pior do que eu”. No entanto, ele não julgou pelo pecado dos outros. Ele sabia que o fato de outros pecarem não justificaria o seu próprio pecado diante de Deus. Ao contrário. Lemos constantemente de como ele servia e crescia diante do Senhor. Os filhos de Eli transformaram aquele lugar santo num ambiente profanado, mas é neste ambiente profanado que ouvimos as palavras do jovem Samuel: “Fala, porque o teu servo ouve”.

A situação de Samuel pode ser contrastada com a de Adão. O primeiro homem criado por Deus vivia num ambiente totalmente favorável para se adorar e servir ao Criador. Ele não foi criado primeiro, pois teria encontrado uma Terra “sem forma e vazia”, mas foi criado por último, encontrando uma Terra cheia e com o melhor clima possível. Deus se fazia presente no Éden, e Adão podia constantemente ouvir a Sua voz (Gn 2:8; 3:8). Era um ótimo ambiente! O homem, porém, escolheu desobedecer e pecar contra Deus.

Por outro lado, Samuel vivia num ambiente totalmente desfavorável. Deus já não estava mais em Siló (embora isso não negue a Sua onipresença), e a Sua voz era pouco ouvida (I Sm 3:1). A vida dos sacerdotes era uma má influência. Era um péssimo ambiente! Samuel, porém, escolheu obedecer e ser fiel ao Senhor.

Esta atitude exemplar de Samuel soa aos nossos ouvidos como uma verdade que não podemos negar. Mesmo o mundo sendo um ambiente tão longe daquele que Deus criou, não podemos nos esconder atrás da desculpa que “todo mundo erra”. É verdade que todos somos passivos de pecar, mas isso não justifica que um cristão possa viver no pecado. Não podemos tomar a forma deste mundo. Deus espera que nos transformemos pela renovação do nosso entendimento a fim de experimentarmos “qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:1, 2).

A HABITAÇÃO DE DEUS

O Tabernáculo era o lugar da habitação de Deus na época de Samuel. Era uma tenda simples, por fora, mas muito preciosa e cheia de significados, por dentro. Tudo ali apontava para uma Pessoa: Cristo. Não precisamos entrar em detalhes quanto aos usos e costumes nesse lugar, mas nos interessa saber que era nessa tenda, no lugar santíssimo, que estava à arca de Deus, símbolo da Sua presença.

Quando Pedro fala do sacerdócio, ele (inspirado pelo Espírito Santo) não diz que a habitação de Deus hoje continua sendo o Tabernáculo, e nem mesmo o Templo construído por Salomão. Ele diz que são “pedras vivas” que constituem a morada de Deus hoje. São pessoas (não mais uma tenda ou um prédio; At 7:44-50) que são “edificados casa espiritual” (I Pe 2:5). O Novo Testamento destaca duas coisas como sendo hoje a casa de Deus:

1) a igreja local (num sentido coletivo, Mt 18:20; I Tm 3:15, etc.);

2) o corpo do cristão (num sentido individual, I Co 6:19, etc.).

Tudo isso nos lembra que somos responsáveis pela maneira como cuidamos da igreja e do nosso corpo. Corremos o risco de tomar uma atitude semelhante à dos filhos de Eli, profanando tanto o corpo (I Co 6:18) quanto à igreja (II Co 6:16-18) onde o Senhor habita.

Desviamos o verdadeiro sentido da habitação do Senhor quando o ambiente onde reunimos não é caracterizado pela reverência e santo temor diante de Deus, que é um fogo consumidor (Hb 12:28, 29).

Acaba tornando-se um ambiente ruim na igreja quando os mais novos não respeitam os anciãos, tratando-os como se fossem antiquados e não se sujeitando a eles (I Pe 5:5). Por exemplo, quando jovens (ou pessoas mais experientes) querem introduzir suas próprias idéias (sem qualquer autoridade bíblica) na igreja e são biblicamente impedidos pelos anciãos, eles logo procuram motivos para falar mal e desacreditar a liderança destes presbíteros (I Tm 5:19).

Igualmente, é triste olhar para uma igreja e ver os anciãos, que são responsáveis pelo rebanho (At 20:28), tolerarem os pecados dos mais novos (veja I Co 5:1, 2). Fazem isso, em muitos casos, com a desculpa de não perder os jovens para o mundo. Há mais honra aos jovens do que a Deus (I Sm 2:29).

Tanto um quanto o outro caso são exemplos de ambiente que desonra a presença de Deus.

Qual é o tipo de ambiente que temos contribuído para que seja criado? Será que quando nos reunimos junto com outros membros o ambiente da igreja é favorável à reverência e adoração a Deus? Quando um incrédulo assenta-se para assistir à reunião ele pode sair “publicando que Deus está verdadeiramente entre vós” (I Co 14:25)? Ou por causa do ambiente que foi criado “os homens desprezam a oferta do Senhor” (I Sm 2:17)?

Que possa haver, nos nossos dias, homens e mulheres, tanto jovens quanto anciãos, que sejam reverentes e sinceros para dizer: “Senhor, neste ambiente, teu servo ouve!”.

Como vimos, o ambiente onde Samuel vivia não era dos mais favoráveis (embora ele vivesse num lugar santo). Mas isso não o impediu de viver de modo que agradasse a Deus. Agora, vamos olhar para outro fator importante.

A OCASIÃO
(Em que Foram Ditas)

INTRODUÇÃO

Há ocasiões que são importantes na vida de uma pessoa. Por exemplo, a ocasião do seu nascimento é uma data que, normalmente, é lembrada com alegria e comemoração. Faraó e Herodes são exemplos disso. Ambos deram um banquete por ocasião do seu aniversário (veja Gn 40:20; Mc 6:21).

Samuel não é uma exceção. Muitos fatos se destacam como sendo importantes na sua vida. Lemos, por exemplo, do momento importante quando, logo após ter sido desmamado, ele foi entregue ao Senhor (I Sm 1:24-28). Ainda outras ocasiões como a intercessão pelo povo (7:5-12), a unção de Saul como rei (10:1), a unção de Davi como rei (16:13), etc. foram importantes. Mas, talvez, uma das ocasiões que mais marcaram sua vida tenha sido a ocasião em que, pela primeira vez, ele ouviu a voz do Senhor. Deve ter sido muito marcante para ele ouvir a voz do próprio Deus. E foi exatamente nesta primeira experiência com Deus que Samuel disse as palavras “teu servo ouve”.

NÃO CONHECIA O SENHOR E A SUA PALAVRA

Moisés, Samuel e Timóteo são exemplos claros de crianças que foram criadas “na doutrina e admoestação do Senhor” (Ef 6:4). É interessante notar que mesmo antes de nascer, Samuel já era alvo de oração (I Sm 1:27). Mas o menino também nos ensina outra lição importante. Aprendemos com ele que ser educado como um servo de Deus não significa ser um servo de Deus. É necessário ter tido a primeira experiência com o Senhor. É importante salientar que Samuel servia ao Senhor (I Sm 2:11), ministrava “vestido com um éfode de linho” (2:18), crescia “diante do Senhor” (2:21), porém,Samuel ainda não conhecia ao Senhor, e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor” (3:7). Isso significa que Samuel servia formalmente no Tabernáculo, porém nunca antes havia tido uma real experiência com o Senhor a Quem servia.

Samuel não estava acostumado a ouvir a voz de Deus, por isto ele correu três vezes a Eli, pensando que este era quem o chamava. O fato de Eli ter ensinado Samuel como deveria responder ao Senhor é mais uma prova de que aquela era a primeira experiência dele.

Outra coisa importante é que Eli ensinou assim: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve”. Samuel, porém, respondeu assim: “Fala, porque o teu servo ouve”. Na sua resposta, Samuel omitiu o nome do Senhor. Ele não fez isso porque era irreverente quanto ao nome da Pessoa que falava com ele, mas sim, porque temia pronunciar esse Nome. Ele não sabia, exatamente, com Quem estava falando. Ele não conhecia o Senhor e a Sua Palavra (voz).

O fato de Samuel ter dito as palavras que Eli o ensinou não deve nos levar a pensar que ele não foi sincero nas suas palavras. Ao contrário. Devemos, sim, encarar como sendo as palavras sinceras de Samuel, e o que ele falou como sendo a verdade de si mesmo para Deus.

“Naqueles dias, a Palavra do Senhor era mui rara, as visões não eram freqüentes” (I Sm 3:1; ARA). Desta maneira começa o capítulo que narra a primeira experiência de Samuel com o Senhor. Parece até uma contradição. No primeiro versículo desse capítulo Deus se mantêm em silêncio, mas no último versículo (v.21), Ele se manifesta e fala freqüentemente. A razão desta mudança é que no meio do capítulo há alguém em condições espirituais para responder de modo reverente: “Fala, porque teu servo ouve” (v. 10)!

Da mesma maneira que Samuel não conhecia o Senhor e a Sua Palavra (apesar de O servir), há o perigo de haver numa igreja local pessoas “servindo” ao Senhor sem nunca ter tido uma primeira experiência com Ele. É possível que se diga: “Senhor, Teu servo ouve”, mas ainda permanecer como simples criatura, sem nunca haver sido transformado em verdadeiro servo de Deus.

Há quem confie que está garantido para a vida eterna pelo fato de ter sido criado junto a uma igreja ou porque tem pais crentes. No entanto, está ignorando uma verdade solene: salvação não passa de pai para filho. O novo nascimento não é pelo sangue de homens (Jo 1:13). Ou seja, pais salvos não dão à luz filhos salvos. Nascer de novo não é um fenômeno hereditário que os filhos herdam ao nascer naturalmente.

O novo nascimento também não acontece por meio de se estar servindo há anos numa igreja local.  Toda pessoa nasce pecadora (Sl 51:5), e mesmo que seja criada num lar de pais piedosos e junto a outros crentes, será tão responsável por crer no Senhor Jesus Cristo quanto qualquer outra pessoa.

Ao contrário disso, o novo nascimento é um milagre que somente Deus pode promover (Jo 1:13). Isto Ele faz por meio do Espírito Santo (Tt 3:5) e da Palavra (I Pe 1:23). A Palavra e o Espírito aparecem juntos em João 3:5 no ato de nascer de novo (creio que “água”, aqui, é a Palavra de Deus; compare com Ef 5:26). Somente estes dois “Elementos” podem conduzir o ser humano a uma viva fé no Senhor Jesus (Ef 1:13).

CONHECENDO O SENHOR

Não há dúvidas de que Samuel conhecia muito a respeito de Deus. Seria incoerente ele servir ao Senhor perante Eli, no Tabernáculo, sem ter ouvido e aprendido o que significavam os sacrifícios apresentados ali. Além disso, sua mãe deve ter lhe ensinado muito do temor a Jeová, pois ela queria apresentá-lo ao Senhor. A questão é que, provavelmente, a única vez que Samuel soube de alguém recebendo uma mensagem de Deus na sua época, foi na ocasião em que “veio um homem de Deus a Eli” (I Sm 2:27). Não havia profetas em Siló, e os sacerdotes não estavam em condições de ser usados por Deus (embora seja verdade que Deus usa a quem Ele quer, como usou Balaão para abençoar o povo de Israel). Tanto Samuel quanto os sacerdotes Hofni e Finéias, filhos de Eli, “não conheciam o Senhor” (I Sm 2:12; 3:7). A nenhum deles Deus se manifestara, mas quando chegou a hora do Senhor “quebrar o silêncio”, Ele se manifestou àquele que teve condições espirituais para responder: “Fala, porque o Teu servo ouve”. Era o primeiro relacionamento entre Deus e o Seu servo. A partir dessa ocasião, Samuel ouviu muitas outras vezes a voz de Deus, mas com experiência própria.

Numa ocasião em que o Senhor Jesus estava sozinho com os Seus discípulos (veja Mt 16:13-17), Ele fez duas perguntas a eles, cujas respostas demonstraram o grau de conhecimento que tinham dEle. “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, foi Sua primeira pergunta. “Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas”, responderam os discípulos. Os homens naturais viam o Cristo como um dos notáveis homens que já existiram; homens “dos quais o mundo não era digno” (Hb 11:38). No entanto, seu conhecimento do Senhor era superficial, pois tais homens, embora muito notáveis, eram homens sujeitos às mesmas paixões que nós (Tg 5:17). “E vós, Quem dizeis que Eu Sou”, foi Sua segunda pergunta. Note que esta segunda pergunta foi mais restrita do que a primeira. Já não era mais o que os homens conheciam, mas sim, o que cada servo conhecia do seu Senhor. “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, responderam os discípulos (a resposta de Pedro representava a dos demais). Que diferença de grau de conhecimento do Senhor! Os homens naturais podem até conhecer o Cristo como um Homem bom, um notável Homem, mas nós devemos conhecê-Lo como Ele é - Deus!

Se nós estivéssemos lá com o Senhor, e Ele, olhando nos olhos de cada um, nos dirigisse essa pergunta tão particular quanto importante, qual seria a nossa resposta? Aliás, a resposta de cada um? Será que teria alguma diferença da resposta dos discípulos? A resposta a essa pergunta do Senhor demonstra o grau de conhecimento que temos dEle.

Desde a ocasião da primeira experiência com Cristo - a salvação - quanto temos crescido “na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (II Pe 3:18)? Que a exortação de Oséias 6:3 nos incomode: “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor”!

CONHECENDO A PALAVRA DO SENHOR

Além de não conhecer o Senhor, Samuel também não conhecia a Palavra do Senhor. Creio que “palavra do Senhor”, aqui, se refere à palavra audível do Senhor, não à escrita. Digo isso porque é provável que Samuel tivesse algum conhecimento dos escritos de Moisés (nestes escritos continham as ordens e maneiras para os sacrifícios, etc). O que ele não tinha conhecimento ainda, era de ouvir, com seus ouvidos naturais, a voz de Deus, “ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor”. Samuel não estava acostumado a ouvir o Senhor falar com ele, por isso, nas três primeiras vezes que a ouviu, não identificou Quem o chamava. Como é diferente lermos depois disso tantas vezes a expressão: “Disse o Senhor a Samuel” (I Sm 8:7, 16:1)! Agora ele sabia Quem lhe estava falando audivelmente.

O Senhor continua falando hoje, porém, pela Sua Palavra escrita. Deus não fala audivelmente conosco como quando falava com Samuel, Ele usa as Suas Escrituras para nos comunicar a Sua vontade. Deus falou “muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas” (Hb 1:1), mas hoje, é a Sua palavra, a Bíblia, que fala ao nosso coração. Há trechos da Bíblia que sabemos citar sem consultá-la, mas há ocasiões que eles nos falam tão intimamente, que é difícil não perceber que é Deus falando conosco. Se queremos ouvir a voz de Deus, precisamos dar ouvidos à Sua Palavra. Mas não é somente saber citar a Palavra, precisamos entendê-la e praticá-la. Quando os saduceus chegaram junto ao Senhor Jesus para O interrogar, eles citaram a Palavra de Deus. O Senhor Jesus, porém, respondeu-lhes: “Errais, não conhecendo as Escrituras...” (Mt 22: 29). Que o mesmo não seja dito de nós.

UM PARALELO

Desde que fomos salvos pelo Senhor, somos ensinados que devemos ser Seus imitadores. Devemos andar como Ele andou, e ser o quanto possível parecidos com Ele (veja, por exemplo, I Pe 2:21).

Isso aconteceu com Samuel. Na ocasião da sua primeira experiência com Deus, ele demonstrou ser bem parecido com Cristo. É interessante fazer um paralelo entre uma das profecias que Isaías fez do Senhor Jesus e a ocasião da primeira experiência de Samuel com o Senhor. Veja as semelhanças:

a) ISAÍAS, Capítulo 50:

Versículo 2 "Por que razão vim Eu, e ninguém apareceu? Chamei, e ninguém respondeu?"

Versículo 4 "Ele desperta-Me Todas as manhãs, desperta-Me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem."

Versículo 5 "O Senhor Deus Me abriu Os ouvidos ...".

b) I SAMUEL, capítulo 3:

Versículo 10 "Então veio o Senhor, e Pôs-se ali, e chamou como das outras vezes."

Versículos 3 e 4 "E estando também Samuel Já deitado... o Senhor chamou a Samuel".

Versículo 10 "Fala, porque o teu servo ouve."

Agora, olhando para nós, quais das nossas atitudes e palavras podem ser comparadas com as do Senhor Jesus? Depois da salvação, quais experiências nós temos vivido com Ele? Será que temos sido tão íntimos do senhor ao ponto de sermos despertados por Ele? Esta é uma responsabilidade de todos que são realmente seus servos. Como é importante que a nossa vida seja um paralelo com a do Senhor! É verdade que esse é um padrão muito alto, mas deve ser buscado com muita diligência.

Que sejamos tão parecidos com o Senhor ao ponto dos incrédulos dizerem de nós:  “Não és tu também dos discípulos deste Homem?” “Não és também tu um dos Seus discípulos?” “Não te vi eu... com Ele?” (Jo 18:17, 25, 26).

“(...) E reconheceram que eles haviam estado com Jesus” (At 4:13).

AS PALAVRAS
(Propriamente Ditas)

Tendo considerado o ambiente e a ocasião em que Samuel falou, pela primeira vez, com o Senhor, cabe-nos, agora, estudar as palavras que ele usou. Cada uma das palavras (vamos estudar apenas as três do nosso título) lembra um princípio importante que serve como lição. Vamos a elas.

“TEU” = POSSESSÃO

Aqui temos o princípio de possessão. Esta palavra “teu” é um pronome possessivo que trás consigo a idéia de uma propriedade que pertence a alguém. Uma das definições que o dicionário português dá a esta palavra é: “Aquilo que pertence à pessoa a quem se fala”. Ao citar essa palavra, Samuel estava indicando quem era o legítimo Dono da sua vida. Ele era uma propriedade que pertencia ao Senhor (com Quem estava falando).

Mesmo antes do seu nascimento, sua mãe, sendo ainda estéril, já o havia dado ao Senhor (I Sm 1:11). Quando o menino nasceu, ela não se esqueceu da promessa que fizera. Ao contrário. Ela se lembrou que o seu filho não era sua propriedade e “por isso”, diz Ana, “também ao Senhor eu o entreguei, por todos os dias que viver” (I Sm 1:28).  E Samuel, por sua vez, viveu sabendo que era possessão do Senhor. Ele testemunhou isso tão bem que “todo Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado por profeta do Senhor” (I Sm 3:20).

Assim como Samuel, não pertencemos a nós mesmos; somos possessões de Deus. Por um direito de criação, todos são do Senhor, seja a Terra com a sua plenitude ou o Mundo com aqueles que nele habitam (Sl 24:1), porque Ele é o Criador de tudo e de todos. Mas por direito de redenção, somente nós, os salvos, pertencemos ao Senhor, porque fomos comprados por Ele. Paulo diz: “...não sois de vós mesmos ... porque fostes comprados por bom preço”, e conclui dizendo do nosso corpo e espírito “os quais pertencem a Deus” (I Co 6:19,20). Pertencemos a Deus porque fomos comprados (a lembrança deste fato deve nos fazer glorificar a Deus no corpo e no espírito). Não foi com coisas corruptíveis como prata ou ouro que fomos resgatados, mas sim, “com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (I Pe 1:18 - a lembrança deste fato deve nos fazer andar em temor (v.17). Se vivemos ao nosso bel prazer, como se fôssemos nossos próprios donos, então já não estamos vivendo condizente com a verdade que dita: “Não sois de vós mesmos”!

Se é notável que Samuel pertencesse ao Senhor, é lamentável que os filhos de Eli pertenciam ao pecado. Estes homens eram “filhos de Belial” (I Sm 2:12). Sempre que alguém na Bíblia é associado ao nome “Belial”, ele é visto como sendo ou fazendo algo que contraria a vontade de Deus. Veja, por exemplo, Provérbios 6:12-15, onde há sete características do “homem de Belial” (vs. 12-14), sendo o seu fim inevitável (v. 15). Os filhos de Eli chegaram a um ponto tão baixo de pecado, que não só foram identificados como filhos de Belial, mas se tornaram abomináveis diante de Deus (I Sm 3:13). Eles já não eram capazes de agir sem a influência do pecado, “por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia” (Rm 1:24).

Ainda que não soubessem, estavam “andando segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar ... fazendo a vontade da carne e dos pensamentos” (Ef 2:2, 3).

À semelhança dos filhos de Eli, as pessoas do mundo estão mostrando cada vez mais a quem pertencem - ao pecado. A filosofia mundana é que o pecado proporciona liberdade, quando na verdade, são “servos do pecado” (Rm 6:20). Quando os judeus disseram: “Nunca servimos a ninguém”, o Senhor os corrigiu: “Todo aquele que comete pecado é servo do pecado” (Jo 8:33,34). A palavra “servo”, aqui, significa “escravo”, indicando que os pecadores são possessões que pertencem ao pecado. O pecado os atrai à uma falsa liberdade como os falsos mestres que Pedro menciona, “prometendo-lhes liberdade, sendo eles mesmo servos da corrupção” (II Pe 2:19). De fato, a liberdade do mundo é a verdadeira escravidão!

“SERVO” = SUBMISSÃO

Nesta segunda palavra do nosso texto, está contido outro princípio importante. Aqui somos ensinados sobre a submissão que deve caracterizar todo verdadeiro servo de Deus.

Ao citar essa palavra, Samuel nos indica qual era o comportamento que regia a sua vida. Uma leitura mesmo superficial dos três primeiros capítulos de I Samuel mostrará que, em sua juventude, ele “servia ao Senhor perante Eli”(3:1). É importante notar que não lemos de qualquer desvio de Samuel em sua fase de mocidade, ao contrário, lemos muito a respeito de sua comunhão e crescimento perante o Senhor ( I Sm 2:21, 26; 3:19). Sua fidelidade no serviço que prestava pôde ser atestada muitos anos depois quando ele, já de muita idade, lembra como andava no meio do povo (I Sm 12:2-5). Ninguém podia acusá-lo de infidelidade!

Em contrapartida, os filhos de Eli eram caracterizados por insubmissão às autoridades. Tais homens, quando foram repreendidos por seu pai (uma autoridade constituída por Deus) deram uma demonstração do que é ser um jovem entregue a si mesmo (Pv 29:15). A maneira como reagiram aos apelos de seu pai foi: “Mas não ouviram a voz de seu pai” (I Sm 2:25).

Vivemos em tempos em que os pensamentos são semelhantes aos de Hofni e Finéias. Realmente este mundo vai de mal a pior. Uma das mensagens popularizadas pela sociedade hoje é a liberdade que os jovens devem ter para assumir suas próprias vontades, não tendo que dar satisfações a ninguém. É comum rapazes e moças se sentirem no direito de ser donos de si mesmos, tornando-se “aborrecedores de Deus (...), desobedientes aos pais e às mães” (Rm 1:30). Não nos surpreende, porém, que isso aconteça, pois já havia sido dito que “nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos... porque haverá homens amantes de si mesmos ... desobedientes a pais e mães ... mais amigos dos deleites do que amigos de Deus” (II Tm 3:1-5). A ordem para nós, no entanto, é clara e pessoal: “Destes afasta-te”!

O fato das pessoas estarem tão longe de ser submissas a Deus não serve como desculpa para também nos envolvermos no mesmo erro. Samuel é um exemplo de que “o pecado que tão de perto nos rodeia” (Hb 12:1) não deve nos afastar da verdadeira posição em que nos encontramos - servos de Deus.

É muito importante notar que o vocábulo “servo”, aqui (I Sm 3:10), significa “escravo”. Ou seja, Samuel não era simplesmente alguém que estava ouvindo o que seria do futuro da casa de Eli. Ele estava se pondo diante de Deus como um escravo que, apesar da sua indignidade, ouviria as próprias palavras do seu Senhor. Nesta ocasião, Deus estava revelando ao Seu escravo algo mais a respeito da Sua Pessoa, além de lhe mostrar o que seria do futuro sacerdócio em Siló. Lemos de um caso semelhante em Ap 1:1, onde a palavra “servos” realmente significa “escravos”. O que nos ensina que o livro do Apocalipse é uma “revelação de Jesus Cristo ... para mostrar aos Seus escravos as coisas que brevemente devem acontecer”. Não somos capazes de calcular o nosso privilégio diante do nosso Senhor. Bem sabemos que “o servo não sabe o que faz o seu senhor” (Jo 15:15), mas nós somos servos agraciados, pois o nosso Senhor não nos tem ocultado o que Ele faz . Que grande privilégio o nosso, sermos servos de um Senhor que nos revela tudo! Como é agradável ser escravo de Deus!

De fato, a escravidão de Deus é a verdadeira liberdade!

“OUVE” = PRONTIDÃO

Este verbo “ouve”, aqui, não só transmite a idéia de alguém que está atento, mas também sugere outro princípio - o de alguém que está pronto a atender. Numa nota de rodapé, a Bíblia Anotada diz que esta palavra aqui significa “ouvir com o propósito de obedecer”.  Com ela a figura do escravo fica completa. Um verdadeiro servo é aquele que não se mede além do que deveras é - um escravo (numa posição muito honrada, por sinal); é aquele que se porta de modo condizente com sua posição - é submisso (às ordens do seu Senhor); é aquele que se mostra pronto a cumprir – ouve para obedecer (com fidelidade) a vontade do seu Senhor.

Quanto a Eli e sua casa, não se portaram como servos que ouvem. As palavras do Senhor a Isaías servem muito bem aqui: “Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis...” (Is 6:9). Eli teve a oportunidade de ouvir duas vezes a sentença para o seu futuro e de sua casa. Deus lhe avisou por intermédio do “homem de Deus” (I Sm 2:27-36) e por meio do jovem Samuel (3:11-14). Isto é uma prova de que “Deus fala uma e duas vezes; porém ninguém atenta para isso” (Jó 33:14).

Apesar da falta de prontidão em atender da parte dos sacerdotes, percebe-se alguém que, apesar da idade (“sendo ainda jovem”, 2:18) ) e da hora ( “estando também Samuel já deitado”, 3:3), responde com exemplar prontidão: “Eis-me aqui”!

Provavelmente Samuel havia servido no templo o dia inteiro, e agora, quando finalmente podia deitar e descansar, ele “correu a Eli”. Isso aconteceu por três vezes, sendo que na quarta ele permaneceu onde estava. Qualquer um de nós teria se mostrado indisposto a levantar se depois da segunda vez alguém continuasse chamando. Ainda mais depois de um dia inteiro de trabalho. Mas um verdadeiro servo é aquele que ouve e corre até a “Voz” divina que o chama.

Deus revelou a Sua vontade àquele que não mediu esforços para cumpri-la. Não é diferente hoje também. O Senhor revela a Sua vontade aos servos que se comprometem a obedecê-la. Normalmente pedimos a Deus que nos guie, mas Davi, numa de suas orações, antes de pedir a Deus que Seu Espírito o guiasse “por terra plana”, pediu: “Ensina-me a fazer a Tua vontade, pois és o meu Deus” (Sl 143:10). Que a nossa oração mostre nossa prontidão em fazer a vontade de Deus como a de Paulo: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9:6).

Além disso, precisamos lembrar que Samuel estava dando ouvidos à Voz divina, e não aos “clamores vãos e profanos” (I Tm 6:20) dos homens de sua época. Pedro, Tiago e João, no monte da transfiguração, ouviram a ordem de Deus: “Escutai-O” (Cristo). Pedro, dando o seu testemunho deste ocorrido diz: “E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com Ele no monte santo” (II Pe 1:18). Mais do que nunca, há grande necessidade que ouçamos, pela Palavra escrita de Deus, “esta voz dirigida do céu”!

CONCLUSÃO

Sempre que nos lembrarmos quem somos (propriedades compradas por preço de sangue), formos submissos (como um escravo que ama o seu Senhor) e tivermos disposição voluntária (com uma prontidão que cause exemplo aos demais), provaremos ser servos dAquele  que Deus diz: “Eis aqui o Meu Servo, a Quem Sustenho, o Meu Eleito, em Quem se compraz a Minha alma” (Is 42:1).

Que sejamos parecidos com Cristo, o Servo de Jeová!

 


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