Sacrifício Vivo

“Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos como um sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com esse mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rom.12:1,2)

Nesses versos tão conhecidos da Palavra de Deus, encontramos dois instrumentos que devem ser usados por cada cristão para serviço de seu Senhor: o externo (o corpo) e o interno (a mente).

O corpo deve servir como sacrifício, a mente deve servir para renovação do interior. Em Jo.2: 21, Cristo fala seu corpo como templo ou santuário que ele edificaria em 3 dias, ressuscitando dentre os mortos. Em I Cor.3: 17 e 6:17, o apóstolo Paulo ensina que o corpo de cada crente é “santuário de Deus” e “santuário do Espírito Santo”. Paulo argumenta que, por nosso corpo ser santuário e habitação do Espírito, não deve ser usado para nossa própria vontade, pois “não sois de vós mesmos”. Se formos comparados a um templo ou santuário, devemos entender o que Deus pode nos ensinar com ele. Salomão quando construiu o primeiro templo, fez em madeira cobrindo-o completamente de ouro (I Rs.6:15,21,22). Havia ali um mar de fundição que era redondo e firmava-se sobre 12 bois, cada 3 olhando para um lado. Na juntura de cima havia leões, bois e querubins e junto à juntura havia rodas e 4 suportes para cada base (7:22-37) Haviam também 10 pias de bronze (7:39) como dez castiçais de ouro e também 10 mesas (2 Cr.4:7,8). Fica clara a diferença do templo para o tabernáculo, que externamente era bem simples, forrado por fora de peles de texugos, e interiormente possuía apenas 1 castiçal, 1 mesa, 1 pia e não possuía mar de fundição. Em Hb.9:23, o escritor inspirado pelo Espírito Santo nos ensina que tudo isso são “figuras das coisas que estão no céu”. E podemos lembrar que cada cristão está “assentado nas regiões celestes” (Ef.2:6 compare com Ap.4). O tabernáculo mostra como o mundo nos vê ou como somos limitados nesse corpo. O templo nos ensina como Deus no vê, perfeitos em Cristo, abençoados com toda sorte de bênçãos espirituais. O ouro fala de realeza e os materiais do templo falam de sacerdócio. É o sacerdócio real que cada filho de Deus possui (I Pe.2:9). O mar de fundição ou mar de vidro é onde o povo de Deus está e encontra-se diante do trono do Senhor (Ap.4:6) representando nossa pureza e santidade por meio de Cristo. As figuras de bois, leões e querubins lembra-nos dos 4 seres viventes, que, por sua vez, apresenta os aspectos de Cristo, como Rei, Servo, Filho do Homem e Filho de Deus. É interessante perceber como rodas acompanhavam os seres viventes aonde iam da mesma forma que estavam rodas unidas às figuras do templo. Essas “rodas” falam da eternidade e perfeição do Senhor (Ez.1:5-19). A santidade de cada salvo está baseada nas características e perfeição do Senhor Jesus. Tanto a mesa, quanto os castiçais falam de comunhão e serviço. É o ministério propriamente dito. E eram dez. O número dez fala de algo completo e também muitas vezes está relacionado ao serviço (veja os 10 talentos e as 10 minas doadas pelo Senhor aos Seus servos). O servo de Abraão tomou 10 camelos de seu senhor Abraão, onde estavam todos os bens, para entregar para Rebeca, futura esposa de Isaque (Gen.24:10). Podemos entender Abraão com um tipo do Pai que envia por meio do seu “servo”, o Espírito Santo, os “10 talentos e 10 minas” (dons para o serviço) à igreja, para prepará-la para Seu Filho. Assim, o templo nos fala da santidade e glória que temos diante de Deus nos céus, fala da capacidade dada por Deus de servi-lo aqui nesse mundo tão escasso. Devemos tomar “ouro, prata e pedras preciosas”, que não se queimam, e não “madeira, feno e palha” que podem facilmente ser destruídos (I Cor.3: 12-15). Perceba que no templo, a madeira estava coberta pelo ouro. A madeira não poderia sofrer dano nenhum enquanto tivesse revestido pelo ouro. Assim também não perderemos galardão enquanto estivermos revestidos por obras agradáveis ao Senhor. O nosso corpo, ou “santuário de Deus”, deve ser direcionado para o serviço, mas também para o sacrifício. É difícil a princípio pensarmos em um “sacrifício vivo”. Afinal, para que fosse um sacrifício, a vítima tinha que morrer. Não é a primeira vez que Paulo compara o serviço cristão com os sacrifícios realizados no templo. Em Fil.2:17 o apóstolo ele mesmo poderia ser derramado como “libação” sobre o sacrifício e serviço da fé dos filipenses. O contexto fala claramente de serviço a Deus por parte do apóstolo e da igreja (Fil.2:12-16). A libação era usada no sacrifício da Páscoa, como quarta parte de um him de vinho (Ex.29: 40,41). As ofertas de libação eram utilizadas em vários sacrifícios juntamente com a oferta de cereais (Lv.23; Nm.4: 7, 6:15-17). Paulo também escreve que estava “sendo derramado como libação” (II Tm.4: 6), agora já num contexto de sacrifício para morte, pois sua “partida” estava próxima. O sacrifício do holocausto vinha sempre em “cheiro suave” ao Senhor, ou “cheiro agradável” (Lv.1). Essa oferta traduz bem o sacrifício que trata Rom.12: 1. Por mais que fosse um sacrifício onde a vítima morria, também era um sacrifício vivo e que agradava a Deus como “cheiro suave”. No holocausto, a gordura do animal era totalmente queimada, a fressura e as pernas eram lavadas com água (vs.12,13). É nesse sentido que Paulo interpreta nosso serviço, oferecer a “gordura”, ou seja, o melhor do corpo e lavar as “fressuras” (interior) e pernas (exterior). Da mesma forma que a figura do templo nos ensinava acerca da santidade e serviço, assim também a figura do sacrifício nos ensina o mesmo nos dias de hoje. Não se pode oferecer “gordura” (o serviço a Deus) se antes não houver “lavagem” (santificação). Por isso o sacrifício é vivo (gordura), santo (lavagem) e agradável (cheiro suave) a Deus, os 3 principais aspectos do holocausto. O próprio tabernáculo nos ensina os mesmos princípios. O primeiro passo para quem entrava era oferecer sacrifício no altar, depois havia a bacia de bronze com água para se lavar antes de entrar no santuário para o serviço. Somente quem tinha direito ao serviço era o sacerdote que também precisavam oferecer sacrifícios por si mesmos e também se submeterem à lavagem ritual.

Deus é nosso culto racional. Os povos pagãos honravam mais a criatura do que o Criador. Prestavam um culto irracional. Em Dt.4:19, Deus mostra como os gentios olhavam para obras de Sua criação como céu, sol, lua e estrelas e se inclinavam diante deles e lhes prestavam culto. Perceba o “culto as hostes do céu” em At.7:42, e “culto aos anjos” (Cl.2:18). Um exemplo maravilhoso disso é a prova que Elias colocou os 450 “profetas de Baal” em I Rs.18. Estes invocaram a Baal desde a manhã até o meio dia e eis que saltavam sob o altar que haviam feito, clamavam em altas vozes e se retalhavam com facas e lancetas, conforme seu costume até derramarem sangue sobre si (vs.25-29). Os idólatras cultuavam um deus que não se expressava e não tinha voz. Tem boca, mas não falam, olhos, mas não vêem (Sl.115:5; 135:16). Nós temos um Deus Vivo (Js.3:10) por isso nosso culto a Ele é racional.

O culto racional está intimamente ligado com a “renovação da vossa mente” e o ato de não se conformar com esse mundo. As duas atitudes estão em confronto uma com a outra, ou seja, não tem como renovarmos a nossa mente sem deixarmos de nos conformar com esse mundo. A palavra grega aqui para conformar-se é “shema” que é o oposto de “morphe” (transformar). Essa palavra denota moldagem segundo um determinado padrão. O melhor exemplo no Velho Testamento para a palavra “shema” é a vida de Ló em Sodoma e Gomorra em Gen.13. Ló escolhe aquelas terras de um povo ímpio e deseja ali habitar (vs.10-12). Mesmo Ló se angustiando com a vida dissoluta daqueles homens (2 Pe.2:7), ele se conformava com a situação deles. Em Gen.19:1 encontramos uma expressão forte: “Ló estava assentado a porta de Sodoma”. Estava descansando num lugar ímpio de homens corrompidos, não estava inconformado, estava completamente moldado à forma daquela sociedade. Ele estava “à porta de Sodoma”. Os homens que se situavam a porta de uma cidade daquele período tinha uma grande influência sobre o lugar, até mesmo sobre o governo daquela região. Ló provavelmente tinha possibilidades de mudar, pela influência que tinha, muita coisa em Sodoma e Gomorra e não o fez. Preferia viver a sua vida a transformar seu entendimento. É triste quando lemos que Ló foi “salvo como pelo fogo” (I Cor.3:15). Toda a “obra” de Ló havia se queimado com o juízo de Deus naquela região com “fogo e enxofre”. Ele estava sem nada para oferecer, senão sua própria vida. Assim também será o destino de quem só tem “madeira, palha e feno” no Tribunal de Cristo. Quem assim vive nesse mundo terá suas obras queimadas pelo fogo purificador do Senhor, será salvo, mas não terá galardão. Será envergonhado e sofrerá dano, como foi no caso de Ló.

Quão diferente é a vida de quem “morphe” (transforma) o entendimento de sua mente. Essa mesma palavra também é usada em Mt.17 tratando da transfiguração do Senhor no monte. Também é usado em 2 Cor.3:18: “...somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor”. Os dois contextos tratam da glória do Senhor refletida transformando a imagem anterior. Em Ex.34:35, Moisés desceu do monte Sinai e a “pele de seu rosto resplandecia..” (ou em outras palavras se transfigurava). Quando estamos sob a influência do Senhor, se revestindo da Pessoa de Cristo (Rom.13:14), do novo homem (Ef.4:24) de toda a armadura de Deus (Ef.6:11) e enchendo-se do Espírito (Ef.5:18). O conhecimento cada vez maior do Senhor fará o cristão se identificar mais com a obra e a si mesmo se purificar com também Ele é puro (I Jo.3:3). A mente será plenamente renovada pensando naquilo que é de cima, e no que é puro (Fil.4:8; Col.3:2). Pois nós temos a mente de Cristo (I Cor.2:16). Essa é a verdadeira renovação mental que o cristão precisa ter para transformar “obras da carne” em “fruto do Espírito”, para andar como Cristo andou, mesmo em um mundo em trevas. É a luz que resplandece no velador, e também é a cidade edificada em cima de um monte. É o despertamento do sono espiritual (Rm.13:11; Ef.5:14; 2 Pe.1:13).

A Palavra de Deus é clara que não temos outra maneira de “experimentarmos” a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. A palavra “experimentar” aqui é a palavra grega “dokimadzo”, que significa submeter a teste, examinar, provar, como se prova a genuinidade do metal da moeda. A mesma palavra é utilizada em I Jo.4:1: “...mas provai (dokimadzo) se os espíritos vêm de Deus...”. Também aparece em I Tes.5:21: “Examinai (dokimadzo) tudo. Retende o bem” e em Fil.1:10: “Para que aproveis (dokimadzo) as coisas excelentes..”.

Essa experiência com Deus fica claro pelo contexto da palavra “dokimadzo” que exige discernimento e provação. Somente um servo amadurecido no Senhor pode traduzir na sua vida “dokimadzo”. E é exatamente essa experiência que faz com que o crente possa plenamente compreender os 3 níveis de satisfazer a Deus: a boa, a agradável e a perfeita vontade dEle.

Podemos comparar isso com os frutos dados pela boa terra em Mc.4:1-20: “produzindo trinta, sessenta e cem por um”. Colocando essas “imagens” em paralelo, podemos observar que 30 pode ser comparado com a boa vontade de Deus, 60 a agradável vontade de Deus e 100 a perfeita vontade de Deus.

O Senhor Jesus como a Videira, deseja que “suas varas” dêem muito fruto. Existe uma divisão também interessante em Jo.15, de 3 tipos de cristãos: os que dão “fruto”, os que dão “mais frutos ainda” (v.2) e os que dão “muito fruto” (v.5). Sendo que o último grupo trata daqueles que permanecem em Cristo e Ele no cristão. Ou seja, aqueles que estão em comunhão íntima com o Senhor, pois esta “revestido” e “pleno” dEle. O Senhor já domina seu caráter, suas emoções, seus planos, seus desejos, suas atitudes, tudo! Deus deseja que permaneçamos perfeitos e plenamente seguros em toda a vontade de Deus (Cl.4:12).

Samuel Ribeiro

 


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