O CARÁTER UNIVERSAL DAS LEIS DE
HIGIENE E RESTRIÇÕES ALIMENTARES

Em Levítico 17 e 18 há vários regulamentos que se aplicam tanto aos israelitas quanto aos não-israelitas. Em Lev. 17:8, 10, 12 e 13 é claramente mostrado que os regulamentos sobre alimentação se aplicam tanto aos israelitas quanto aos estrangeiros que peregrinassem entre o povo de Deus. Portanto, eram leis de aplicação universal, tanto quanto o sábado que foi estabelecido “por causa do homem”, tanto que em Isaías 56:2-8 os estrangeiros são convocados a aceitarem os termos do concerto com Israel, exatamente por adotarem o princípio do sábado.

Já as leis sacrificais de Lev. 1-7 não mencionam especificamente “estrangeiro” ou “peregrino” porque não têm aplicação universal. Só se aplicariam aos estrangeiros que se integrassem à vida israelita, como um converso à sua religião. Assim, temos a lei de Gênesis 9:4 sobre o consumo de sangue, que tem caráter universal, é repetida na lei para Israel em Lev. 17:10-12 e se reflete até como ainda normativa aos cristãos, segundo definido no Concílio de Jerusalém (Atos 15:20).

Temos outros exemplos de “leis universais”, como a dos casamentos proibidos (Lev. 18:6-17), pecados contra a castidade (Lev. 18:18-21), homossexualidade (Lev. 18:22), e bestiliadade (Lev. 18:23). Essas leis universais fizeram com que as nações pagãs fossem expulsas de seus territórios (Lev 18:24), de modo que é dito: “porquanto a terra está contaminada, eu visito sobre ela a sua iniqüidade, e a terra vomita os seus habitantes”. E o vs. 26 sintetiza: “nenhuma dessas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós”.

É digno de nota que os animais impuros são parte das “abominações”. O termo “abominações” (tô’ebôth) é empregado na declaração introdutória (vs. 3) das leis dietéticas de Deut. 14:3-21. O termo “abominação” tem várias conotações, mas significa essencialmente algo que, por sua natureza, é definido em oposição ao que é aceitável e/ou permitido por Deus.

E eis uma consideração lingüística adicional de que as leis dietéticas que definem animais limpos e imundos são de caráter universal, não sendo cerimoniais: As nações “pagãs” de Canaã praticavam essas “abominações” (tô’ebôth) que eram proibidas nas leis universais, e com isso sofreram as conseqüências de tais atividades por julgamento radical (Lev. 18:24-30). De igual modo, o comer alimentos imundos é uma “abominação” (Deut. 14:3, tô’ebôth) de outra lei universal, válida para toda a humanidade.*

Uma das explicações mais antigas sobre o sentido de tais leis é o caráter de higiene/saúde. “Os animais imundos eram reconhecidos pelos antigos como um perigo à saúde, e foram, portanto, pronunciados imundos”, declara Gordon Wenham, e Roland E. Clements diz: “O que temos aqui é um manual de instruções simples e abrangente quanto a alimentos e higiene pessoal” (Wenham, The Theology of Unclean Food, p. 6), e Roland E. Clements, (“Leviticus”, Broadman Bible Commentary, Londres: Marshall, Morgan and Scott, 1971), II:34.

Essa posição quanto a higiene é também apoiada por outros, inclusive o conhecido erudito evangélico William F. Albright em Yahweh and the Gods of Canaan (Garden City: Doubleday & Comp., 1968, pp. 177-81) e Roland K. Harrison é um comentarista moderno que insiste nesse princípio de higiene/saúde como razão para as leis dietéticas (Leviticus, pp. 126-31). Ele alista vários organismos parasitários que podem ser contraídos de animais impuros, incluindo peixes.

A terminologia neotestamentária para descrever os cristãos identifica essa comunidade como “nação santa”, que no Êxodo foi aplicada a Israel (19:6). Pedro escreve sobre isso em 1a. Pedro 2:9 claramente indicando que a expressão “nação santa, povo escolhido, sacerdócio real” não se refere a Israel etnicamente. Para o santo “remanescente” de Deus um estilo de vida que reflita santidade inclui as leis dietéticas universais, com isso devendo haver separação do que seja prejudicial e destrutivo.

Hoje o Israel de Deus do Novo Concerto deve continuar seguindo as leis divinas de saúde e santidade, o que se reflete nas próprias recomendações do Concílio de Jerusalém de Atos 15:20, pois elas refletem as leis universais de Levítico 17, 18 e Gênesis 9.

Os crentes do Novo Testamento foram a “nação santa” prometida por Deus. É um povo santo que prossegue a fazer “diferença entre os animais limpos e os imundos . . .” (Lev. 20:25) e assim, nessa área e em outras, é instada a “como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em todo o vosso procedimento” (1 Ped. 1:15).

Resumindo o que o estudo acima indica:

1. As leis dietéticas de Levítico 11:2-23, 41-45 (Deut. 14:3-20) são parte da lei universal propiciada no Velho Testamento, independente da lei ritual/cerimonial.

2. Sua ligação com o relato da criação e a narrativa do dilúvio dentro do contexto do universalismo de Gênesis 1-11 é assegurada em bases terminológicas e temáticas.

3. A linguagem especial de “puro/imundo”, “detestável”, e “abominação” e seus relacionamentos as ligam com leis divinas universais válidas.

4. O raciocínio contextualmente explícito de “santidade” e “redenção” une as leis dietéticas com o tema da “nação santa” no Novo Testamento para todos os genuínos cristãos que são uma “nação santa” espiritual, separada para Deus a fim de que os crentes sejam santos “em todo o vosso procedimento” (1 Ped. 1:15). A santidade se manifesta em conduta santa. Revela-se entre muitas coisas numa contínua distinção do que Deus designou como apropriado para o consumo humano, a fim de que “quer comais, quer bebais, ou façais qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor. 10:31).

[Condensado do estudo do Dr. Gerhard F. Hasel, “Is the Distinction Between Clean and Unclean Animals in Leviticus 11 Still Relevant Today?”]
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Obs.: *Aí se encaixa perfeitamente bem o texto escatológico DE CARÁTER UNIVERSAL, de Isaías 66:16-18 que os adeptos do “liberou geral” quanto às leis de restrições alimentares não sabem como interpretar. Deus quando reunir todas as nações para o julgamento irá considerar abominação o consumo de carne de porco e de rato.

Prof. Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura

 


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