Do Domingo para o Sábado

[Olá, amigos

Já que tocaram no assunto, permitam-me falar algo sobre experiências de abandonar o adventismo, ou seja a igreja que for. Temos livre-arbítrio e livre trânsito para buscar as verdades que melhor se ajustarem a nossos sentimentos ou entendimento.

Interessante que enquanto esse cavalheiro mencionado está em busca de uma igreja, deixando o adventismo, eu segui exatamente o caminho oposto. Deixei uma tradicional igreja evangélica e tornei-me adventista. Assim, eu conheço bem os dois campos. E, por favor, diga a esse amigo que não sei de nenhuma dessas igrejas evangélicas que tenha ALGO MELHOR a lhe oferecer em termos de compreensão da mensagem bíblica, seja em termos das mensagens básicas do cristianismo ou da interpretação da escatologia (tanto em termos pessoais - da natureza e destino humanos, e de profecias de acontecimentos finais).

Eu pertencia à Igreja Evangélica Congregacional e tudo começou quando, ao aproximar-me de meus 18 anos, tive contato com uma colega de trabalho adventista que tinha se convertido há pouco tempo, oriunda do catolicismo. Fiquei contente em saber que tínhamos mais uma ovelha no rebanho do Senhor, saída do erro do catolicismo. Conversando com ela é que descobri que como adventista (que eu imaginava ser apenas mais uma denominação evangélica como tantas outras que eu conhecia por contatos diretos ou por ouvir falar - batista, metodista, presbiteriana, pentecostal, irmãos unidos). Daí é que descobri que o adventismo tinha diferenças marcantes com relação à igreja de meus pais, em que fui criado, destacando-se a questão do sábado, em vez do domingo, e a crença na não-imortalidade da alma.

Logicamente eu procurei contestá-la quanto a essas diferentes opiniões, defendendo as "santas tradições" do protestantismo conservador ao qual eu pertencera a vida toda. A Maria, essa amiga, me fez um pequeno desafio: "Mostre-me que o domingo é o verdadeiro dia do Senhor a ser observado em substituição ao sábado do sétimo dia, como a Bíblia determina, e me tornarei membro de sua igreja". Pensei comigo: "Isso vai ser fácil, especialmente porque ela é uma crente nova e conhece pouco a Bíblia". Mas pedi a meu pai, tradicional líder leigo da Igreja Congregacional, que me ajudasse a reunir as passagens pertinentes para eu apresentar um "estudo bíblico" para essa moça que se tornara adventista. A reação inicial do meu pai me deixou intrigado: "Cuidado com esses sabatistas. São muito perigosos... "Por que perigosos? Achei incrível essa declaração e isso apenas despertou minha maior curiosidade. Quis "tirar a limpo" que perigo seria esse.

Mas, enfim, meu pai apresentou-me os argumentos clássicos em defesa do domingo (que noto que os evangélicos nem se preocupam mais em utilizar), com as 8 passagens que falam dos "acontecimentos" ligados á Ressurreição de Cristo e Pentecostes no 1o. dia da semana. Apresentei à Maria tais passagens, e ela em menos de 3 minutos destruiu toda a minha argumentação demonstrando que tais textos não provam coisa alguma de que, por causa da Ressurreição, o texto da lei divina foi alterado, passando o domingo a ocupar o lugar do sábado.

Bem, eu estava convicto da validade e vigência do Decálogo como norma de conduta cristã. Então, era muito simples: o Decálogo sofreu apenas essa ligeira alteração, com o domingo passando a ocupar o lugar do sábado, pois todos os demais mandamentos eram obviamente válidos e vigentes para o mundo inteiro. Não me ocorria nenhuma outra explicação. Afinal, depois descobri que a própria "Confissão de Fé" Congregacional ensina, no tópico 28 de sua "Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo":

Art. 21º - Da Obediência dos Crentes - Ainda que os salvos não obtenham a salvação pela obediência à lei senão pelos merecimentos de Jesus Cristo, recebem a lei e todos os preceitos de Deus como um meio pelo qual Ele manifesta sua vontade sobre o procedimento dos remidos e guardam-nos tanto mais cuidadosa e gratamente por se acharem salvos de graça. Ef 2:8,9; I Jo 5:2,3; Tt 3:4-8.

Ademais, o próprio hinário dos congregacionais, Salmos e Hinos, tem belos hinos de exaltação à lei divina, e um deles, de no. 517, chega a dizer: "lei de Deus falsificada... rejeitai. Lei de Deus não muda, o Senhor ajuda quem a cumprir, sem desistir..."

Assim, quando devolvi ao meu pai a argumentação da Maria em resposta ao que lhe apresentei, notei que ele ficou sem saber o que dizer, mas passou a atacar os adventistas e observadores do sábado em geral como "legalistas" que desejam salvar-se pela prática das obras. Levei o problema à Maria perguntando se essa era a posição do adventismo. Ela me trouxe DOCUMENTOS OFICIAIS da IASD falando em salvação inteiramente pela graça, nada de legalismo. Assim, constatei que havia uma total distorção dos fatos. Os adventistas não eram mais legalistas por observarem o 4o. mandamento da lei (sobre o sábado) do que os evangélicos em geral por respeitarem os termos do 2º. mandamento, não adorando imagens.

Mas a busca pelos fatos prosseguiu, e notei que meu pai e outros da Igreja que vieram em meu "auxílio" nas dúvidas surgidas partiram para uma argumentação que logo percebi ser absurda: negavam a validade do Decálogo como norma de conduta cristã e vinham com certos argumentos que não me convenciam de modo algum: a) de que agora apenas basta respeitar o mandamento de Cristo de "amar o próximo", e não mais o Decálogo; b) de que agora estamos na "dispensação da graça" e não mais na "dispensação da lei"; c) de que não há mais obrigatoriedade de observar dia algum, e por aí afora...

Em vista do que eu via na literatura OFICIAL da Igreja percebi que estavam me "enrolando" por não saberem como justificar a tradição dominical, obviamente de origem católica. E meus amigos presbiterianos, dos "irmãos unidos", batistas não pareciam saber mais como resolver os problemas. Os documentos oficiais de todas essas igrejas ensinam que devemos observar os mandamentos do Decálogo como norma de conduta cristã, e que o domingo era mesmo um dia especial por causa da Ressurreição. Mas, de repente, quando lhes apresentava os pontos que a Maria me apresentou, mudavam também a Teologia, e a lei era abolida, ou o mandamento a cumprir agora era o do amor, ou não havia obrigatoriedade de dia nenhum... Enfim, uma confusão e contradição incríveis.

Mas eu me recordo como o pastor da Igreja Congregacional nem quis saber, quando lhe levaram o problema de como eu estava sendo influenciado pelos "sabatistas". A reação dele foi citar uma passagem bíblica que diz, "os que nos deixaram, é porque não eram dos nossos...", e deixou pra lá. Um bom irmão, chamado Manoel, diácono da Igreja por anos, veio me "ajudar". Ele começou a explicar que agora estamos na "dispensação na graça" e não mais "da lei". Foi quando lhe perguntei como se salvavam as pessoas no tempo da "dispensação da lei". Ele respondeu com naturalidade que era "pela lei", mas agora a salvação "é inteiramente pela graça". Disse-lhe então que aprendera com os adventistas que a salvação SEMPRE FOI PELA GRAÇA.

Homem algum jamais pode salvar-se por reunir méritos diante de Deus, então esse ensino de "dispensação da lei" versus "dispensação da graça" estava totalmente equivocado. O homem arregalou os olhos, pois nunca havia aprendido isso em seus muitos anos de frequencia da Igreja Congregacional.

Quanto ao pastor, que não me considerava digno de merecer o seu precioso tempo, já que eu não era dos "escolhidos", saiu da Igreja anos depois em desgraça. Ele tinha um tal "cultinho das crianças" pois se dizia que adorava crianças. E assim, após o culto regular, ele reunia as crianças para o seu "cultinho", e um dia uma senhora precisou sair mais cedo, e foi buscar a filha pequena no "cultinho". O que ela flagrou deixou-a chocada. Ela fingiu que nada percebeu e chamou a filha. Daí, em casa, pediu que esta lhe contasse tim-tim por tim-tim o que ocorria no tal "cultinho" do pastor "escolhido" que me desprezou por eu não pertencer a essa sua tão especial categoria. O que ocorria é que o velhote gostava de passar a mão boba nas intimidades das menininhas e, talvez, dos menininhos. Era um pedófilo, muito antes dos escândalos ocorridos no catolicismo nesse campo.

Bem, logicamente isso aparentemente não tem nada a ver com doutrinas, mas é significativo que a Igreja Católica teve tais problemas por ensinar que um sacerdote, ao executar seus rituais, estes pertencem à Igreja, e ele é apenas um "representante de Cristo", e não importa a sua condição moral ou espiritual. Assim, se o sacerdote for um corrupto isso não afeta o rito, da igreja. Não seria isso um motivo conducente a essas situações? Da mesma forma, essas atitudes desse pastor (e poderia contar outros fatos de escorregões morais de membros da igreja) não procederiam dessa ambiguidade quanto ao Decálogo ser ou não ser a norma de conduta cristã? Se a lei foi "abolida", fica no ar uma pista à libertinagem. Falar que agora temos uma "lei de Cristo", mais "user friendly" (outro dos confusos argumentos apresentados) só pode deixar as pessoas nesse lusco-fusco moral, e constatei isso muitas vezes entre os jovens dessas igrejas.

Não estou dizendo que os adventistas sejam santos, ou que um jovem adventista não possa escorregar e cair em pecado. Muitos passam por isso, mas pelo menos não há ambiguidade. Fica-lhe claro que errou, que transgrediu os mandamentos da lei divina que é a norma de conduta para todos. Daí irá buscar a superação aos pés da cruz. Mas não há essa ambiguidade que ocorre no protestantismo, e muito do liberalismo que ocorre nesse meio sem dúvida resulta também disso.

Sem falar nos maus efeitos das teorias dispensacionalistas na compreensão errônea das profecias, promovendo uma teologia de desprezo aos judeus, como já tenho exposto aqui. E o descambar do protestantismo nestas últimas décadas a uma religiosidade subjetiva, com desprezo de estudos mais profundos da Bíblia, como ocorre no pentecostalismo e suas graves distorções da mensagem bíblica, como também já expus aqui numa série. Isso tudo para não falar da horrorosa e absurda doutrina medieval do inferno de fogo, e da imortalidade da alma, que distorcem a visão de Deus, como um Ser cruel e insensível à dor e ao sofrimento humano, pois preservará pela eternidade bilhões de criaturas num fogo que Ele próprio parece ser incapaz de apagar... Bem declarou o famoso ateu Robert Ingersoll ao aprender quando adolescente numa Escola Dominical essas teorias: "Se esse é o Deus de amor que têm para me oferecer, eu o odeio!"

Bem, amigos, muito mais poderia dizer, mas creio que diante de "testemunhos" e referências aqui apresentados de pessoas que abandonam o adventismo, creio que é justo mostrar o outro lado da moeda.

A todos, um abraço

Prof. Azenilto G. Brito
Ministério Sola Scriptura
Bessemer, Ala., EUA]

 


Estudos Bíblicos