Discussão de Paulo sobre Alimentação
(Romanos 14)

O Que Paulo Discute em Romanos 14 Sobre Alimentação?

Analisando uma questão que os "valetudistas alimentares" não conseguem entender

Diz Romanos 14:17: “porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo”. Nesta passagem não há a mínima intenção apostólica de ensinar o “liberou geral” dos cristãos quanto às leis alimentares porque esse tema JAMAIS é discutido na Bíblia. Assim também jamais se discute a conveniência de falar-se ou não o nome de Deus em vão, questão que não precisava ser discutido pois havia consenso a respeito.

Paulo fala em Tito: “Evita discussões insensatas, genealogias e contendas, e debates sobre a lei; que não têm utilidade e são fúteis” (3:9). Debates vários surgiram no meio dos cristãos, e as muitas regras do judaísmo eram, sem dúvida, motivo dessas inúmeras discordâncias.

Que Paulo não está se referindo aos grandes temas de lei e graça, dizendo para não serem jamais debatidos, não tem lógica (como já ouvi alguns alegarem), pois do contrário o próprio Paulo estaria desrespeitando sua clara recomendação. Afinal, quem mais discute o papel da lei e da graça na economia cristã, em Romanos, Gálatas, Efésios, etc., senão o mesmo Paulo?

No capítulo 14, o Apóstolo está instando os cristãos mais amadurecidos e fortes na fé a darem simpática consideração aos problemas de seus irmãos mais fracos que tinham certos escrúpulos sensíveis quanto a dias especiais de observância, feriados típicos dos judeus, e alimentos sacrificados a ídolos, que era um grande problema na época, certamente motivo de muitos debates e conflito de idéias. Afinal, a epístola aos Romanos foi escrita menos de um ano antes de 1 Coríntios onde a discussão é claramente voltada a esse problema.

Nos caps. 12 e 13, Paulo mostra que a fonte de unidade e paz na igreja é o genuíno amor cristão. Esse mesmo amor e respeito mútuo assegurarão contínua harmonia entre o corpo de crentes, a despeito de opiniões e escrúpulos diferentes em questões de prática religiosa. Aqueles crentes cuja fé os capacitasse a imediatamente deixar para trás todos os feriados cerimoniais (ainda relevantes na consideração de certos crentes de origem judaica) não deviam desprezar outros cuja fé é menos forte. Nem, por seu turno, os últimos deviam criticar os que lhes parecessem mais descuidosos.

Cada crente é responsável diante de Deus (Rom. 14:10-12). E o que Deus espera de cada um de Seus servos é que esteja plenamente persuadido em sua mente, seguindo conscienciosamente suas convicções de acordo com a luz recebida e compreendida até então. Diz o vs. 3, “Quem come não despreze a quem não come; e quem não come não julgue a quem come; pois Deus o acolheu”.

No vs. 14 ele mostra que a impureza não jazia no alimento, mas na opinião do crente. “Para ele” seria imundo, ou comum, ou seja, desprezível. O cristão “débil” cria que não devia alimentar-se de comidas oferecidas a ídolos e transforma em tema de consciência abster-se de certos alimentos, e enquanto conservar tal opinião, parecer-lhe-á muito mal usar deles. Pode até estar equivocado segundo o ponto de vista do outro, mas não seria correto que viole o que com a melhor consciência supõe ser o que Deus dele requer (cf. vs. 23).

E no vs. 15 ele reforça tal pensamento: “Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu”. Daí é que ele finalmente diz: “porque o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo”. Convém fazer notar que essa “comida” referida não se limita a carnes, mas o termo grego é broma, que se aplica a todo tipo de alimento. Enquanto isso, o termo para comidas “imundas” no grego, como empregada em Atos 10:14 é akarthaton, e ainda consta koinón (comum), significando tudo quanto era contrário à lei, e também termo aplicado aos gentios, tidos por “comuns” (até hoje os judeus consideram os não-judeus goyim, comuns).

Portanto, não ocorre JAMAIS o emprego de akarthaton em Romanos 14, pois a discussão não é absolutamente sobre carnes limpas/imundas, e sim sobre alimentos sacrificados a ídolos. Ademais, é sabido que a epístola aos Coríntios foi escrita com diferença de apenas cerca um ano com relação à redação de Romanos. E o tema destacadamente tratado em 1 Coríntios 8 e 10 é exatamente a questão de alimentos sacrificados a ídolos, nada, absolutamente, tendo a ver com qualquer debate sobre carnes limpas/imundas. Aliás, desafio qualquer um a provar-me onde JAMAIS Paulo ou qualquer outro autor bíblico discute no Novo Testamento a validade ou não-validade para a comunidade cristã do que é tratado em Deuteronômio 14 ou Levítico 11.

Paulo ressaltou: “Portanto, quer comais ou quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor. 10:31). E diz isso discutindo a questão de carnes sacrificadas a ídolos, pois no contexto imediato ele diz: “Se eu participo com ações de graças, por que hei de ser vituperado por causa daquilo de que dou graças?” (vs. 30). E compara antes com o que se passava no ritual de Israel: “Considerai o Israel segundo a carne; não é certo que aqueles que se alimentam dos sacrifícios são participantes do altar?” (vs.18).

Ele, pois, estava tratando de alimentos que se utilizavam com ações de graças - ou seja, o que fosse lícito, segundo o que Deus determinara na Sua lei, não carnes imundas, tais como Pedro havia recusado tomar como alimento (Atos 10:14). Isso é confirmado em 1 Tim. 4:3 onde ele critica certas práticas de extremistas que proibiam o próprio casamento e o tomar alimentos “que Deus criou para serem recebidos com ações de graça, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade”.

As muitas discussões procedentes desse tema quanto a comer ou não alimentos sacrificados a ídolos deviam ter um fim, porque “o reino de Deus não consiste no comer e no beber, mas na justiça, na paz, e na alegria no Espírito Santo”. Daí que ele prossegue ressaltando a necessidade de paz e harmonia entre os crentes: “sigamos as coisas que servem para a paz e as que contribuem para a edificação mútua”.

Conclusão: Não existe a mínima pista em todo o capítulo 14 de Romanos que a intenção do apóstolo é falar de comidas outrora proibidas, que passaram a não mais ser assim. Prova adicional disso é que ele usa o termo broma, que jamais é usado só para as carnes imundas e refere-se aos alimentos em geral, e koinon, traduzido como “imundo” (vs. 14), tendo o sentido de “comum”. Em Atos 10:14 Pedro usa os dois termos, “comum ou imundo”, sendo que para “imundo” o termo é askarthos, que Paulo não emprega nesta discussão. Koinon era o sentido daquilo que para o judeu era tido como não conforme com a sua fé e prática religiosa. Os próprios gentios ainda hoje são chamados de goyim, pelos judeus, que significa “comum” em hebraico.

A ênfase dele é a harmonia e paz, e recomenda o fim de tantos debates a respeito, pois ficarem o tempo todo discutindo sobre comidas e bebidas, se sacrificadas a ídolos ou não, parecia atitude nada construtiva, que não contribuiria para a paz e harmonia entre os crentes.

Prof. Azenilto G. Brito
Ministerio Sola Scriptura
Bessemer, Ala., USA

 


Estudos Bíblicos