Balanço dos Argumentos Apresentados
Pelos Adeptos do “Liberou Geral”
Quanto às Regras Alimentares

 

Qualquer discussão da questão das regras alimentares das Escrituras deve partir de três questões básicas que precisam ser bem definidas. Três perguntas definem isso, e são elas:

1. Por que Deus criou essas leis de limitações alimentares? Teria Ele simplesmente "cismado" sobre certos tipos de carne, sem qualquer motivo justo, e pronto?

2. Em que aspectos as leis dietéticas teriam sido abolidas na cruz, já que não eram cerimoniais? Em que apontariam ao sacrifício expiatório de Cristo?

Obs.: Houve quem sugerisse que simbolizariam a separação entre judeus e gentios. Mas se assim for, Deus estaria incluindo em Sua lei (que é um transcrito de Seu próprio caráter) um aspecto de algo que Ele, que "não faz acepção de pessoas", condena.

3. Como o sangue derramado de Cristo teria sido eficaz para purificar a carne de porco, rato, urubu, cobras e lagartos? Teria operado alguma mudança de composição estrutural de modo a torná-las adequadas ao consumo humano?

4. Onde está escrito que Deus muda de opinião sobre a consideração das carnes imundas como "abominação" (Deu. 14:3), sendo que até o fim dos tempos, quando todas as nações e línguas forem reunidas, e quando verão a Sua glória, "os que comem carne de porco, coisas abomináveis e o rato serão consumidos" (Isa. 66:16-18)?

Obs.: Isaías descreve um evento PÓS-CRUZ, portanto, na "jurisdição" do Novo Testamento.

5. Como se pode considerar legítimo um Cristo que recomenda a mais estrita obediência ao "mínimo" dentre os mandamentos da lei que garantiu não ter vindo abolir, e sim cumprir (ver Mat. 5:17-19), mas que depois Se põe a abolir as leis de restrição alimentar, como apresentado por aí?

Vejamos, a seguir, os principais argumentos levantados pelos “valetudistas alimentares” e como há dificuldades imensas para que tenham razão em suas alegações:

* Alegação: Cristo em Marcos 7:1-23 fala do que entra pela boca não contaminar o homem, o que se interpreta como se Ele estivesse liberando Seus seguidores das regras alimentares.

Dificuldades de tal interpretação:

A – O contexto claramente indica que a discussão não era do conteúdo das leis dietéticas de Levítico 11 ou Deuteronômio 14, e sim o contraste entre o que Deus estipulou e o que a “tradição dos anciãos” determinava quanto a lavagens purificadoras cerimoniais (Mat. 15:2). Isso Ele mesmo confirma no vs. 20.

B – Se Jesus está “purificando” supostos alimentos imundos naquela refeição, Seu ato foi inútil porque se tratava de uma refeição judaica, na qual não haveria carnes imundas, ainda mais que havia tanto rigor quanto às regras de abluções sobre que eles discutiam com Jesus.

C – Se estivesse abolindo para todos os efeitos as leis dietéticas, Cristo estaria abolindo a lei de restrições alimentares ANTES DA HORA, pois as regras sobre alimentação não foram abolidas na cruz? Além de ser antes da hora, o suposto sentido prefigurativo está ausente, pois só na expiação de Cristo é que os tipos encontram o Antitipo, a sombra é substituída pela Realidade!

D – Cristo estaria ensinando algo contrário à lei divina “ainda” vigente, com o que teria que ser, Ele próprio, considerado “o mínimo no reino dos céus” à luz de Suas palavras em Mateus 5:19.

* Alegação: Segundo muitos, o Concílio de Jerusalém, registrado em Atos 15 demonstraria que os cristãos gentios estavam livres das limitações todas da “lei judaica”, ficando especialmente isentos da guarda do sábado e das leis alimentares.

Dificuldades de tal interpretação:

A – Querer limitar a expressão “lei de Moisés” (vs. 5) somente a alguns itens que não convenham ao investigador é atitude claramente desonesta (leis alimentares e sábado). Esta expressão é bem mais ampla e pode incluir os preceitos cerimoniais, como também os morais, como “não matarás”, “não furtarás”, “honra teu pai e a tua mãe”, “não dirás o nome de Deus em vão”. . . Esse uso discriminatório da expressão é inteiramente suspeito.

B – O que ficou determinado no Concílio é expresso em quatro itens de coisas de que os cristãos gentios deviam ABSTER-SE. Não se tratava de nenhuma listinha de coisas que deviam passar a praticar, em substituição à “lei mosaica”, como alguns pensam (um ‘Tetrálogo’ a substituir o Decálogo?).

C – Das quatro regras estabelecidas, TRÊS tratam de. . . restrições alimentares! Então, em lugar de o Concílio de Jerusalém confirmar o “liberou geral” quanto às regras alimentares, instituiu foi algumas regras reiterando antigas restrições, aliás coisas da lei que supostamente havia sido abolida, como a proibição de ingerir sangue (Lev. 17:10-14). Como iriam repetir normas de uma lei abolida?!

D – Entre as reiterações de antigas normas há a recomendação contra os “pecados sexuais”, o que já era bem conhecido como lei divina, expressa no sétimo mandamento, “não adulterarás”. Contudo, os apóstolos acharam por bem reiterar tal princípio, por razões que não são expostas mas que deve referir-se aos cultos pagãos que envolviam prostitutas e prostitutos cultuais, e nem por isso a lei da qual essa regra é citada foi abolida.

* Alegação: Argumenta-se que o episódio da visão do lençol de Pedro, narrada em Atos 10, em que aparece um lençol com todo tipo de animais imundos, acompanhada da ordem, “mata e come”, é prova de que houve um “liberou geral” divino sobre as regras alimentares.

Dificuldades de tal interpretação:

A – A resistência de Pedro ante a ordem “mata e come” mostra que ele não aprendera com Jesus ou seus companheiros apostólicos que houve o “liberou geral” das leis de restrições alimentares.

B – Pedro não entendeu o sentido da visão de modo algum, pois manteve-se intrigado sobre a mesma (vs. 17), e que o seu sentido era inteiramente simbólico se percebe pelo simples fato de que seria impossível ao Apóstolo matar e comer o que via numa visão. Seria o mesmo que alguém tentar chupar um sorvete mostrado numa tela da TV.

C – Quando finalmente entendeu o sentido da visão, não a interpretou como tendo que ver com liberdade para comer de tudo, e sim que os gentios, dos quais aos judeus não era permitido “mesmo aproximar-se”, deviam ser contatados com o evangelho (ver vs. 28).

D - No capítulo seguinte, 11, ele diz que não poderia resistir à visão (vs. 17), mas tal resistência não dizia respeito a comer carnes imundas, e sim ao contato com os gentios. No seu discurso durante o Concílio de Jerusalém ele faz menção a sua experiência indiretamente, e fala em “purificação”, mas não de carnes imundas, e sim dos corações dos gentios conversos (ver Atos 15:7-9).

Que ele superou tal resistência fica claro em Gálatas 2:11, onde é dito que comia com os gentios, embora tenha recebido repreensão de Paulo pelo fato de tentar disfarçar esses seus contatos, injustificadamente.

* Alegação: Na consideração de muitos, as leis de restrições alimentares eram cerimoniais, simbolizando a separação entre judeus e gentios, tendo cessado com a morte expiatória de Cristo.

Dificuldades de tal interpretação:

A – Os adeptos do “liberou geral” das leis alimentares não sabem definir as razões de Deus as ter instituído, para começo de conversa. Se fosse para proteger a saúde do povo, por que tal preocupação desapareceria da noite para o dia com a morte de Cristo, sendo que as condições de higiene de homem e animais permaneceriam as mesmas de séculos, não só na Terra de Judá, como por todo o mundo onde o evangelho seria pregado?

B – Não se justificaria que da noite para o dia carnes tais como de rato, urubu, cobras e lagartos passassem a ser consumidas, quando o véu do Templo rasgou-se de alto a baixo, e os valetudistas alimentares não sabem justificar por que a morte de Cristo teria alterado a composição dos alimentos imundos, e explicar como tais alimentos prejudiciais à saúde deixaram de sê-lo quando Cristo proferiu o “Está consumado” e expirou.

C – Não ocorre a mínima evidência de que realmente a alimentação com todo tipo de comida passou a ser a prática dos seguidores de Cristo dos primitivos anos do cristianismo, seja na Terra de Judá ou pelo resto do mundo.

D – Embora haja quem alegue que aquelas leis eram prefigurativas da separação entre judeus e gentios, o fato é que Deus não iria manter em Sua lei um aspecto tão negativo relativo a maus sentimentos humanos (preconceito racial, xenofobia), pois Ele “não faz acepção de pessoas”. Ademais, isso representaria mudar o enfoque de Cristo e Seu perfeito sacrifício para o homem em suas deficiências.

* Alegação: Há quem interprete que em Romanos 14 Paulo trata dos “fracos” em conflito com os “fortes” na fé, a respeito de certos artigos alimentares, dedicando-se a debater a utilização de carnes outrora imundas, o que também se daria em 1 Tim. 4:1-3.

Dificuldades de tal interpretação:

A – Não há a mínima evidência de que os debates ali ultrapassassem a questão de alimentos sacrificados a ídolos, já que Paulo dissendia das decisões do Concílio de Jerusalém que proibiam tal consumo, dizendo que “o ídolo em si nada é”, permitindo tal consumo, apenas recomendando respeito aos que tivessem escrúpulos delicados, para não melindrá-los com a licença de valerem-se de tais alimentos que, aliás, não se limitam a carnes (do grego broma).

B – A ênfase de Paulo quanto a nosso corpo ser “o templo do Espírito Santo” (1 Cor. 3:16, 17; 6:15) não favorece a noção de que o crente pode alimentar-se de carnes de porco, rato, urubus, cobras e lagartos, já que o mesmo Paulo disse: “Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Cor. 10:31). Com isso ele mostra que o cristão deve cuidar com o que come, e não ser indiferente ao tipo de comida que ingere.

C – O texto de discussão paralela em 1 Timóteo 4 fala em “abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graça” (1 Tim. 4:3)  e  o seu contexto refere-se a quem até proibia o casamento, portanto numa referência a um grupo específico de pessoas, que os pesquisadores identificam como gnósticos de uma ala ascética. Logo, não se trata de uma regra geral, e de cara já temos que considerar que o “tudo o que Deus criou é bom” (vs. 4) deveria incluir também cobras, lagartos, baratas, aranhas. Além disso, excluiria os alimentos da “restrição alimentar” do Concílio de Jerusalém (Atos 15:20), com o que o “tudo” claramente tem suas limitações e não deve ser interpretado de modo absoluto.

D – Em 1 Tim. 4:5 Paulo fala de usar comidas (não só carnes, mas alimentos em geral--no grego broma) que Deus criou e que são boas “porque pela palavra de Deus e pela oração são santificadas”. Sendo que a Palavra de Deus é citada como base para decisão de alimentos e esta estabelece as regras dietéticas (e a instrução bíblica que os cristãos primitivos na época recebiam era em grande medida por ouvirem a leitura das Escrituras aos sábados nas sinagogas—ver Atos 15:21) é extremamente improvável que o apóstolo esteja dando “carta branca” para o consumo de baratas, urubus, cobras e lagartos como sendo criados por Deus para consumo humano, milagrosamente transformados em alimentos aptos ao consumo humano apenas por causa de uma oração de graças (como alguns deixam implícito).

* Alegação: O texto escatológico de Isaías 66:17 trata de profecias futuras, mas muitos querem que isso seja só ligado a Israel, e não a todos os moradores da Terra, pois há menção a nações relacionadas à história e experiência de Israel como nação, além da passagem achar-se no Velho Testamento.

Dificuldades de tal interpretação:

A – Os capítulos 65 e 66 lidos na sua inteireza mostram o quadro de Deus apelando a Israel para ser-Lhe fiel e abandonar práticas condenáveis e abomináveis, diante da promessa de extermínio dos inimigos que os desviaram da verdade, e do novo céu e Nova Terra que se antecipam.

B – O contexto imediato da passagem fala de “fogo e espada” com que o Senhor entrará “ em juízo COM TODA CARNE”, e que Ele vem para “ajuntar todas as nações e línguas” as quais “contemplarão a Minha glória”, numa claríssima indicação de tratar-se do mesmo fim descrito em Apocalipse. E “esses todos” que comem carne de porco, rato e praticam idolatria estão incluídos entre os condenados à destruição, tanto no capítulo 65 quanto 66 (ver Isa. 65: 3 e 4 e 66:16-18; ver ainda Eze. 33:25—nações pagãs condenadas por comerem carne com sangue).

C – Há descrições de nações contemporâneas do profeta (Társis, Pul, Lude, Tubal e Javã), mas são representativas das “todas as nações” mencionadas, bem como no Apocalipse o vidente de Patmos também trata de Babilônia, Egito, Gogue e Magogue representando TODOS os povos inimigos dos filhos de Deus que encontrarão o seu castigo final. Pode-se dizer que tal passagem, embora registrada no Velho Testamento, está na “jurisdição” do Novo Testamento, pois o fim de todas as coisas se dará depois da cruz.

D – No próprio final do capítulo há referência clara aos “novos céus” e “nova terra”, quando o povo de Deus estaria se mantendo fiel à lei divina, inclusive observando o sábado. No Novo Testamento também lemos de destruição aos que destroem o corpo, que é Templo do Espírito Santo (1 Cor. 3:17 e 6:19) e no Apocalipse João se refere às “aves imundas”, num contexto escatológico (ver Apo. 18:2). Destarte, pelo fim do 1º. século AD João ainda mantinha a concepção de animais imundos, e ainda que a expressão seja simbólica, serve como prova de que tal atribuição a certos animais havia cessado?

Frof. Azenilto
Ministerio Sola Scriptura

 


Estudos Bíblicos